As SMS dos CTT, dos bancos e das Finanças podem estar prestes a encontrar um novo obstáculo. O Governo quer que as operadoras passem a ter um papel mais ativo no combate à fraude. Mas a medida levanta uma questão importante: será suficiente para proteger os portugueses?
Se tem telemóvel, é muito provável que já tenha recebido uma mensagem suspeita.
Pode ter sido uma SMS dos CTT a pedir um pagamento de 1,99 euros para libertar uma encomenda. Talvez uma mensagem a alertar para uma dívida urgente. Ou até um contacto que parecia vir do seu banco.
Nos últimos anos, estas situações deixaram de ser exceções para se tornarem rotina.
A diferença é que, desta vez, o Governo quer mudar as regras do jogo.
No final de maio, o Conselho de Ministros aprovou uma proposta que pretende reforçar o combate às burlas realizadas através de SMS e chamadas telefónicas, atribuindo novas responsabilidades às operadoras de telecomunicações.
O objetivo é simples de explicar:
“Impedir que muitas destas mensagens fraudulentas cheguem sequer ao telemóvel dos utilizadores.”
Mas por trás desta frase existe um problema muito maior do que parece.
O problema já não é apenas tecnológico. É financeiro.
Quando se fala em cibercrime, muitas pessoas imaginam hackers altamente especializados ou ataques informáticos complexos.
Na realidade, grande parte das burlas continua a depender de algo muito mais simples:
A confiança das vítimas.
Os criminosos perceberam há muito tempo que é mais fácil enganar uma pessoa do que atacar um sistema informático.
Por isso, as burlas modernas raramente começam com ameaças óbvias.
Começam com algo banal.
Uma encomenda.
Uma multa.
Um pagamento pendente.
Um reembolso.
Uma chamada aparentemente normal.
É precisamente por isso que estas mensagens continuam a fazer vítimas.
Segundo o Relatório do Observatório de Cibersegurança do Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS), os incidentes registados pelo CERT.PT aumentaram cerca de 36% num único ano, sendo o phishing e o smishing (fraudes realizadas através de SMS) dos incidentes mais reportados.
📌 O que é o smishing?
É uma variante do phishing.
Em vez de utilizar email, os criminosos utilizam mensagens SMS para convencer a vítima a clicar num link, efetuar um pagamento ou fornecer dados pessoais e bancários.
Na prática, a técnica é a mesma.
Apenas muda o canal utilizado.
O que pretende mudar com esta proposta?
A proposta aprovada pelo Governo ainda terá de passar pela Assembleia da República.
Se for aprovada, as operadoras poderão ficar obrigadas a implementar mecanismos mais robustos de deteção e bloqueio de comunicações fraudulentas.
Entre as medidas previstas estão:
- Bloqueio de SMS fraudulentas;
- Deteção de ligações suspeitas;
- Combate à falsificação de identidade telefónica;
- Reforço da identificação de utilizadores de cartões pré-pagos;
- Maior colaboração no combate a esquemas de fraude.
Para o cidadão comum, a tradução é simples:
Se a medida funcionar como previsto, muitas mensagens fraudulentas poderão ser travadas antes mesmo de chegarem ao telemóvel.
O problema que poucos conhecem: o spoofing
Muitas pessoas acreditam que conseguem identificar facilmente uma burla.
Mas existe uma técnica que tem enganado milhares de utilizadores.
Chama-se spoofing.
⚠️ O que é o spoofing?
É a capacidade de fazer uma chamada ou uma SMS parecer enviada por uma entidade legítima.
Na prática, o telemóvel pode mostrar:
- O nome do banco;
- Uma entidade pública;
- Uma empresa conhecida;
- Um número aparentemente oficial.
Mas a mensagem não veio dessa entidade.
Veio de um burlão.
É precisamente por isso que muitas vítimas acreditam que estão a falar com uma organização legítima.
A Europol tem alertado repetidamente para esta técnica, que se tornou uma das ferramentas preferidas dos criminosos digitais em toda a Europa.
“O verdadeiro perigo não está na mensagem. Está na credibilidade que ela aparenta ter.”
Porque é que os CTT aparecem tantas vezes nestas burlas?
Porque funcionam.
Pode parecer uma resposta simples, mas é exatamente essa.
Milhares de portugueses recebem encomendas todas as semanas.
Quando surge uma SMS a informar que existe um problema com uma entrega, a mensagem parece plausível.
O burlão não precisa de convencer a vítima de algo extraordinário.
Precisa apenas de apresentar uma situação que pareça normal.
Exemplo típico
“A sua encomenda encontra-se retida. Efetue o pagamento de 1,99€ para evitar devolução.”
O valor é pequeno.
A situação parece credível.
A urgência cria pressão.
E muitas pessoas acabam por avançar.
O objetivo raramente é o pagamento dos 1,99 euros.
O objetivo é obter os dados do cartão bancário.
O que muda para o teu bolso?
Esta é provavelmente a pergunta mais importante.
À primeira vista, o tema parece apenas relacionado com telecomunicações.
Mas não é.
O impacto destas burlas é financeiro.
Quem cai num destes esquemas pode:
- Perder dinheiro diretamente;
- Expor dados bancários;
- Comprometer contas digitais;
- Sofrer novas tentativas de fraude no futuro.
Por isso, qualquer medida que reduza a quantidade de mensagens fraudulentas que chegam aos utilizadores pode ter um efeito direto na proteção do património das famílias.
📌 Traduzindo para português simples
Menos SMS fraudulentas recebidas significa menos oportunidades para os burlões enganarem pessoas.
Os cartões pré-pagos também vão mudar
Uma das partes menos faladas da proposta envolve os cartões SIM pré-pagos.
O Governo pretende reforçar a identificação dos respetivos utilizadores.
A justificação é simples.
Em muitos casos, estes cartões são utilizados para dificultar a identificação dos responsáveis por determinados esquemas de fraude.
Ao exigir maior identificação, as autoridades acreditam que será mais fácil investigar atividades criminosas.
Naturalmente, esta é uma medida que também levanta discussões sobre privacidade e controlo.
Mas o argumento do Governo é que a dificuldade em identificar utilizadores facilita a atuação dos burlões.
Então as burlas vão acabar?
Não.
E esta é a parte que merece mais honestidade.
Quem prometer o fim das burlas está a vender uma ilusão.
As operadoras podem bloquear números.
Podem filtrar mensagens.
Podem identificar padrões suspeitos.
Mas os criminosos adaptam-se.
Quando uma técnica deixa de funcionar, surge outra.
Quando uma porta fecha, procuram outra entrada.
É por isso que especialistas em cibersegurança insistem numa ideia simples:
“A tecnologia ajuda. Mas a atenção continua a ser a melhor defesa.”
O que deve continuar a fazer?
Mesmo que estas medidas avancem, continuam a existir cuidados básicos que nunca devem ser ignorados.
⚠️ Sinais de alerta
- Pedidos de pagamento inesperados;
- Mensagens com tom de urgência;
- Links suspeitos;
- Solicitação de códigos bancários;
- Erros de português;
- Pressão para agir rapidamente.
Se tiver dúvidas:
Não clique.
Entre diretamente no site oficial da entidade ou contacte-a através dos canais habituais.
Pode parecer um pequeno gesto.
Mas é precisamente esse pequeno gesto que impede milhares de burlas todos os anos.
Conclusão
O Governo quer colocar as operadoras na linha da frente do combate às SMS e chamadas fraudulentas.
A medida pode representar um passo importante para reduzir o número de tentativas de fraude que chegam diariamente aos portugueses.
Mas existe uma realidade que nenhuma lei consegue alterar.
Os burlões exploram emoções humanas: confiança, medo, urgência e distração.
E enquanto essas emoções existirem, continuarão a surgir novas tentativas de fraude.
A boa notícia é que uma SMS bloqueada pode evitar uma burla.
A melhor notícia é que uma SMS ignorada evita todas
Fontes oficiais
- Centro Nacional de Cibersegurança (CNCS)
- CERT.PT
- Governo de Portugal (Comunicado do Conselho de Ministros)
- Europol
- ANACOM


Leave a Reply