Porque é que o mesmo Lipton Ice Tea custa 60% mais em Portugal do que em Espanha?

Durante anos habituámo-nos a ouvir a mesma explicação sempre que um produto é mais caro em Portugal: “a culpa é dos impostos”. Mas será que essa resposta explica realmente tudo? Decidimos pegar num caso concreto, fazer as contas e seguir o dinheiro.

Um produto, dois países, dois preços

Imagine que atravessa a fronteira e entra num supermercado espanhol. Na prateleira encontra uma garrafa de Lipton Ice Tea Limão de 2 litros por 1,99 €.

Dias depois entra num supermercado português e encontra exatamente o mesmo produto por 3,19 €.

A diferença é de 1,20 € por garrafa.

Não estamos a comparar marcas diferentes, nem embalagens diferentes. Estamos a falar do mesmo produto vendido em dois mercados vizinhos.

A pergunta surge naturalmente:

Quem fica com esse euro e vinte?

A explicação que todos ouvimos

Quando se fala do elevado custo de vida em Portugal, a resposta surge quase automaticamente.

“Os impostos em Portugal são muito elevados.”

É verdade que Portugal tem uma carga fiscal significativa sobre muitos produtos. Mas uma afirmação só vale a pena quando é confirmada pelos números.

Por isso, decidimos desmontar o preço desta garrafa, componente a componente.

Primeiro: o IVA

Portugal aplica uma taxa normal de IVA de 23%.

Em Espanha, a taxa normal é de 21%.

A diferença existe, mas é de apenas dois pontos percentuais.

À primeira vista percebe-se que dois pontos percentuais dificilmente conseguem explicar uma diferença de 1,20 € num produto que custa cerca de dois ou três euros.

Mas há outro imposto.

O imposto que muitos consumidores nem sabem que existe

Desde 2017, Portugal aplica o Imposto Especial sobre o Consumo de Bebidas Adicionadas de Açúcar ou Edulcorantes (IABA).

O objetivo declarado foi incentivar a redução do consumo de açúcar e promover hábitos alimentares mais saudáveis.

Ao contrário do IVA, este imposto não é uma percentagem sobre o preço.

Depende da quantidade de açúcar existente na bebida.

Quanto maior o teor de açúcar por litro, maior o imposto.

É aqui que entra o Lipton Ice Tea.

Quanto paga realmente esta garrafa?

Segundo a informação nutricional do fabricante, o Lipton Ice Tea Limão contém aproximadamente 30 gramas de açúcar por litro.

Isso coloca a bebida no escalão intermédio do IABA.

Aplicando a taxa atualmente em vigor, uma garrafa de 2 litros suporta cerca de 14 cêntimos de imposto do açúcar.

Até aqui, tudo parece relativamente simples.

Mas existe um detalhe que passa despercebido à maioria dos consumidores.

O imposto também paga imposto

Em Portugal, a base tributável do IVA inclui outros impostos especiais.

Na prática, isso significa que o IVA também incide sobre o próprio IABA.

Ou seja:

  • primeiro paga-se o imposto do açúcar;
  • depois paga-se IVA sobre esse imposto.

No caso desta garrafa, esse efeito representa mais alguns cêntimos.

É um detalhe técnico previsto na legislação, mas pouco conhecido pelo consumidor comum.

Afinal, quanto explicam os impostos?

Mesmo somando:

  • a diferença de IVA entre Portugal e Espanha;
  • o imposto do açúcar;
  • e o IVA cobrado sobre esse imposto,

a componente fiscal continua a representar apenas uma fração da diferença total de 1,20 €.

A conta deixa uma questão inevitável.

Se os impostos explicam apenas parte da diferença, o que explica o restante?

Onde pode estar a diferença?

Há vários fatores que influenciam o preço final de um produto:

  • custos logísticos;
  • dimensão do mercado;
  • poder de negociação entre fabricantes e distribuidores;
  • estratégias comerciais;
  • campanhas promocionais;
  • margens praticadas pelos operadores da cadeia de distribuição.

Sem acesso aos contratos comerciais entre fabricantes e retalhistas, não é possível atribuir com rigor quanto corresponde a cada um destes fatores.

Mas uma conclusão pode ser retirada:

A fiscalidade, por si só, não explica toda a diferença de preço observada.

O problema da perceção

Sempre que um produto aumenta de preço, a tendência é apontar imediatamente para os impostos.

E, de facto, Portugal tem uma carga fiscal relevante.

Mas quando se colocam os números em cima da mesa, percebe-se que a realidade é mais complexa.

Os impostos explicam uma parte.

O restante resulta de decisões comerciais tomadas ao longo da cadeia de distribuição.

É precisamente essa parte que raramente é explicada ao consumidor.

Esta investigação não termina aqui

O caso do Lipton Ice Tea pode ser apenas um exemplo.

A verdadeira questão é saber se este padrão se repete noutros produtos vendidos em Portugal e Espanha.

Será que o mesmo acontece com refrigerantes, detergentes, cereais, café ou produtos de higiene?

Se a resposta for afirmativa, estaremos perante um fenómeno muito mais amplo do que um simples caso isolado.

É essa investigação que o Bolso Público pretende continuar.

Conclusão

Os impostos existem. O IVA existe. O imposto do açúcar existe. E é verdade que, em Portugal, o IVA incide também sobre esse imposto.

Mas, quando se analisam as contas de um produto concreto, percebe-se que essa carga fiscal explica apenas uma parte da diferença de preço.

O consumidor merece saber o resto da história.

Porque quando paga mais 1,20 € pela mesma garrafa, a pergunta continua sem resposta completa:

Quem fica com o restante euro?


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