Portugal está a bater recordes no crédito. E isso pode sair caro mais tarde

Nunca se pediu tanto dinheiro emprestado em Portugal

Os portugueses voltaram a recorrer em força ao crédito.
Segundo dados do Banco de Portugal, o valor dos novos empréstimos concedidos às famílias ultrapassou pela primeira vez os 4 mil milhões de euros num só mês.  

Só no crédito à habitação, o valor total em dívida atingiu os 113,6 mil milhões de euros, o nível mais elevado desde 2011. E o crescimento anual do crédito da casa já é o mais alto desde 2003.  

Ao mesmo tempo:

  • o crédito ao consumo continua a subir;
  • os prazos dos empréstimos continuam longos;
  • e muitas famílias estão a decidir com base apenas na prestação mensal.

É aqui que começa o problema.


O erro que muita gente está a cometer

Quando alguém pede um empréstimo, normalmente olha para isto:

“Consigo pagar esta prestação todos os meses?”

Mas a pergunta mais importante devia ser:

“Quanto vou pagar no total ao banco?”

Porque uma prestação “leve” durante muitos anos pode esconder milhares de euros em juros.

Exemplo simples

Imagina:

  • um crédito de 20.000€;
  • pago durante 8 anos;
  • com juros elevados.

A prestação pode parecer “aceitável”.
Mas no final, a pessoa pode acabar a devolver:

  • 27 mil,
  • 28 mil,
  • ou até mais.

Ou seja:

  • o problema não é apenas pedir dinheiro;
  • o problema é o custo invisível do crédito longo.

Crédito ao consumo continua muito caro

Apesar de alguma descida dos juros face aos picos recentes, o crédito ao consumo em Portugal continua com taxas elevadas. Em fevereiro, os novos empréstimos ao consumo apresentavam juros próximos dos 9%.  

E há um detalhe importante:

Muita gente usa crédito:

  • para tapar buracos;
  • pagar despesas correntes;
  • trocar de carro;
  • ou compensar perda de poder de compra.

Ou seja, o crédito está cada vez mais a funcionar como extensão do salário.


O crédito da casa também voltou a acelerar

O crédito habitação voltou a crescer fortemente em Portugal.  

Isto acontece por vários motivos:

  • descida parcial dos juros em 2025;
  • campanhas agressivas dos bancos;
  • garantia pública para jovens;
  • e pressão para comprar casa antes que os preços subam ainda mais.

Mas existe um risco:

As taxas Euribor já começaram novamente a dar sinais de subida e os juros da habitação interromperam recentemente um ciclo de descidas de mais de dois anos.  

Isto significa que:

  • prestações podem voltar a subir;
  • e muitas famílias podem ficar presas a créditos muito longos num contexto económico mais instável.

O problema não é o crédito. É entrar sem margem

O crédito pode ser útil:

  • para comprar casa;
  • resolver necessidades;
  • ou financiar projetos importantes.

O problema aparece quando:

  • a taxa é demasiado alta;
  • o prazo é exagerado;
  • ou a família fica sem margem financeira.

Porque basta:

  • subir a Euribor;
  • aumentar uma despesa;
  • perder rendimento;
  • ou surgir um imprevisto…

…e uma prestação “suportável” deixa rapidamente de o ser.


O que deves analisar antes de aceitar um empréstimo

Antes de assinar qualquer crédito, olha para:

  • custo total imputado;
  • TAEG;
  • valor total pago ao banco;
  • seguros obrigatórios;
  • comissões;
  • e impacto da prestação se os juros subirem.

E faz uma pergunta simples:

“Se a prestação subir 100€ ou 150€, continuo confortável?”

Se a resposta for “não”, o risco pode já estar acima do saudável.


O que está realmente a acontecer em Portugal

Os números mostram uma realidade importante:

Portugal está novamente a entrar numa fase de forte dependência do crédito.  

E quando o crédito cresce muito depressa, normalmente há duas leituras:

  1. confiança no mercado;
  2. ou famílias pressionadas a financiar o que antes conseguiam pagar sem empréstimos.

Muitas vezes, as duas ao mesmo tempo.


Conclusão

Os bancos estão a emprestar mais dinheiro do que nunca.
Mas isso não significa automaticamente que as famílias estejam mais confortáveis financeiramente.

Em muitos casos, significa apenas:

  • prestações mais longas;
  • mais juros acumulados;
  • e mais dependência do crédito para manter o nível de vida.

E é precisamente aí que começam muitos problemas financeiros silenciosos.


Fontes


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