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Durante anos, muitos anúncios de emprego em Portugal tinham tudo menos o essencial: horário, funções, exigências, experiência mínima, disponibilidade imediata… mas nada sobre o salário.
O candidato ia à entrevista sem saber se a proposta compensava. E, muitas vezes, ouvia a pergunta clássica: “quanto ganha atualmente?” ou “qual é a sua expectativa salarial?”
A partir da nova diretiva europeia sobre transparência salarial, este jogo começa a mudar. A União Europeia aprovou regras para obrigar os empregadores a darem mais informação sobre remunerações e para limitar práticas que deixam o trabalhador em desvantagem logo no recrutamento.
O que vai mudar?
A principal mudança é simples: os candidatos devem ser informados sobre o salário inicial ou sobre a faixa salarial do cargo.
Essa informação pode aparecer diretamente no anúncio de emprego ou ser dada antes da entrevista. O objetivo é evitar que uma pessoa perca tempo num processo sem saber se aquele trabalho paga 900€, 1.200€ ou 1.800€.
Outra mudança importante: os empregadores deixam de poder perguntar ao candidato quanto ganha ou quanto ganhou anteriormente. Esta regra existe para evitar que salários baixos do passado continuem a “perseguir” o trabalhador no futuro.
Quando entra em vigor?
A Diretiva Europeia 2023/970 tem de ser transposta pelos Estados-membros até 7 de junho de 2026. Portugal também terá de adaptar a lei nacional a estas novas regras.
Ou seja: não significa que amanhã todos os anúncios mudem automaticamente, mas significa que as empresas já têm prazo para se prepararem.
O que isto muda no teu bolso?
Muda bastante.
Quando uma empresa esconde o salário, quem está à procura de emprego entra sempre em desvantagem. Pode pedir menos do que a empresa estava disposta a pagar. Pode aceitar uma proposta pior. Pode perder tempo em entrevistas que nunca fariam sentido.
Com uma faixa salarial visível, o trabalhador ganha três coisas:
Primeiro, consegue perceber logo se a vaga compensa.
Segundo, entra na entrevista com mais poder de negociação.
Terceiro, consegue comparar melhor ofertas diferentes.
Exemplo simples: se uma vaga indica uma faixa entre 1.100€ e 1.400€, já sabes que não faz sentido aceitar 1.000€ como se fosse uma proposta “normal”. E também sabes que há margem para negociar dentro daquele intervalo.
Mas atenção: há um truque possível
Isto não acaba automaticamente com todos os abusos.
Algumas empresas podem tentar usar intervalos demasiado largos, como:
“Salário entre 900€ e 1.800€”
Na prática, isso pode continuar a deixar o candidato às escuras. O valor existe, mas não esclarece grande coisa.
Por isso, o detalhe vai estar na forma como Portugal aplicar a diretiva e no nível de fiscalização. A regra pode ser boa, mas se for aplicada de forma vaga, perde força.
Os trabalhadores também vão ter novos direitos
A diretiva não fica apenas pelos anúncios de emprego. Os trabalhadores também poderão ter direito a informação sobre níveis médios de remuneração para funções equivalentes, incluindo dados desagregados por género, para ajudar a detetar diferenças salariais injustificadas.
Isto não significa que vais poder ver o salário exato de todos os colegas. Significa que poderá haver mais informação sobre médias salariais e critérios usados para definir salários e progressões.
O que deves fazer quando isto avançar?
Quando vires um anúncio de emprego, confirma se tem salário ou faixa salarial.
Se não tiver, pergunta antes da entrevista.
Se te perguntarem quanto ganhas atualmente, atenção: essa prática está no centro das novas proibições europeias.
E se te derem uma faixa salarial muito larga, pergunta diretamente:
“Qual é o valor previsto para alguém com a minha experiência?”
Essa pergunta é importante porque obriga a empresa a sair da conversa vaga e a aproximar-se de uma proposta real.
A ideia principal
O fim do segredo salarial pode dar mais poder a quem trabalha.
Mas só será realmente útil se as empresas forem obrigadas a dar informação clara, e não intervalos salariais tão largos que acabam por esconder quase tudo na mesma.
Para o bolso do trabalhador, a diferença é esta: menos entrevistas às cegas, menos propostas surpresa e mais capacidade para negociar salário com informação na mão.


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